sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Corpo de Dor


Walter Leistikow, Waldsee in Winter (1892, State Museum, Berlin).

Algumas situações negativas pelas quais passamos ao longo da nossa vida afectam quer o nosso corpo, quer a nossa mente, gerando emoções nada agradáveis como, por exemplo, o medo, a raiva, a tristeza ou a culpa. Naturalmente que, à medida que o tempo vai passando, também a emoção vai diminuindo de intensidade, sendo o corolário desejável, que ela desapareça totalmente. No entanto, por vezes guardamos dentro de nós um resto de emoção que não se dissolveu completamente e que vai deixando as suas sequelas pelo caminho.

Como podemos saber se guardámos dentro de nós um resto emocional e, em caso afirmativo, como podemos observá-lo?

Inicialmente basta que nos lembremos da situação que ocorreu e que esteve na base dessa emoção. Se ainda sentirmos algum desconforto, por menor que seja, podemos estar certos de que uma parte da emoção então gerada ainda existe em nós.

Ao mantermos no nosso inconsciente este resto emocional que referimos atrás, permitimos que, por estar latente, ele seja activado, com maior intensidade, logo que uma nova situação semelhante se coloque, o que irá amplificar o sofrimento do sujeito. É também possível que, ao invés desta intensificação emocional, a pessoa crie medo de sofrer de novo e, provocando uma descida na sua auto-estima, iniba certos comportamentos.

Ao permanecer dentro de nós, a energia dessa emoção irá ser activada, na grande maioria das vezes sem nos darmos conta, influenciando os nossos pensamentos e as nossas acções. É como se essa emoção adquirisse vida própria, capaz de criar mecanismos de sobrevivência, usando-nos para se alimentar. Ocorrendo à nossa memória, sendo reproduzida nas nossas conversas, essa emoção acaba por se permitir um desenvolvimento indefinido.

Acabamos por não ter uma só situação em que uma emoção não foi dissolvida na sua totalidade, para passarmos a ter um sem número delas, umas mais outras menos intensas. E cada emoção vai funcionar como uma pequena entidade autónoma, que vai influenciar as nossas acções negativamente.

Somando todas essas energias não dissolvidas, teremos uma grande entidade formada por emoções negativas. Eckhart Tolle, no seu livro "Um novo mundo, o despertar de uma Nova Consciência" chama de corpo de dor a este conjunto de energias não dissolvidas que formam uma grande entidade de emoções negativas.

O corpo de dor, uma vez que não temos consciência dele, acaba por ir crescendo dentro de nós, dominando-nos e usando-nos para se poder desenvolver. No momento em que começamos a identificar a sua actuação, começa a ser possível a nossa libertação e o início do fim do sofrimento.

O corpo de dor necessita de escuridão para se alimentar. Quando começamos a identificá-lo, a tomar conhecimento dos processos que utiliza, é como se o trouxéssemos para a luz e começássemos a impedi-lo de actuar. Começamos a entender que se trata apenas de uma energia de sofrimento que se encontra dentro de nós, mas que não faz parte da nossa essência. Deixar de o alimentar permitir-nos-á sermos mais felizes.

É muito importante elencar os eventos passados que nos causam desconforto, que nos incomodam, a fim de podermos, paciente e persistentemente, ir dissolvendo essa energia, enfraquecendo o corpo de dor e começando a aumentar a nossa paz e a nossa felicidade.

By Manuela Palmeirim
in 3.Fev.2012

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